O Efeito Oppenheimer das Inteligências Artificiais: uma proposta conceptual para a governança de tecnologias cognitivas exponenciais
O presente artigo introduz uma proposta conceptual original, aqui designada Efeito Oppenheimer das Inteligências Artificiais, como quadro de leitura para compreender o momento civilizacional em que a humanidade adquire capacidades cognitivas artificiais cuja escala de impacto se aproxima, em termos filosóficos e estratégicos, da que separou, em 1945, a física teórica da responsabilidade histórica. A partir de uma metodologia qualitativa, bibliográfica e de natureza conceptual, o estudo revisita o Projeto Manhattan e a relação entre Julius Robert Oppenheimer e Albert Einstein como caso paradigmático de dilema moral científico (Schweber, 2000), estabelecendo paralelos cuidadosamente fundamentados com a atual trajetória da Inteligência Artificial (IA). Recorrendo à filosofia estoica de Epicteto, Séneca e Marco Aurélio, na leitura que dela fazem Bolaños Guerra e Morton Gutierrez (2024), defende-se que a IA, tal como os bens materiais discutidos pelos estoicos, é moralmente neutra: amplifica a intenção de quem a maneja, não a substitui. O artigo distingue ainda inteligência artificial de emoção artificial (Picard, 1997), expondo uma confusão conceptual frequente na perceção pública do risco tecnológico. Após uma análise escalonada de benefícios e riscos, propõe-se um modelo original de governança multilateral, os Centros Continentais de Acompanhamento e Governança da Inteligência Artificial, inspirado em mecanismos de coordenação técnica já testados historicamente. Conclui-se que o verdadeiro Efeito Oppenheimer não reside na tecnologia em si, mas no momento em que a humanidade reconhece que a responsabilidade moral deve tornar-se proporcional ao poder que cria.
